sábado, 24 de janeiro de 2026

Carbendazim

Compostos orgânicos aromáticos heterocíclicos são compostos cíclicos que contêm um átomo de nitrogênio, oxigênio ou enxofre substituindo um átomo de carbono na estrutura básica. Entre esses compostos heterocíclicos, encontram-se os benzimidazóis, que são formados pela fusão de um anel benzênico e um anel imidazólico. Seus derivados exibem um amplo espectro de propriedades biológicas, com aplicações tanto como pesticidas quanto como fármacos. Entre os benzimidazóis, o metil-2-benzimidazol-carbamato (C₉H₉N₃O₂), comumente conhecido como carbendazim, é um composto de ampla atividade. Desde a década de 1960, devido à sua eficácia em baixas doses e à sua atividade inibitória contra uma variedade de fungos, tem sido amplamente utilizado na agricultura, particularmente em países como a China e a Índia. Apesar de seu uso disseminado, o carbendazim é reconhecido como um dos contaminantes ambientais mais difundidos, representando um risco significativo à saúde reprodutiva humana e animal devido à sua lenta degradação. Essa resiliência ambiental é atribuída à estabilidade do anel benzimidazólico, que resiste à degradação. Além disso, quando a degradação ocorre, resulta na formação de um componente altamente tóxico, o 2-amino-benzimidazol. Neste trabalho, o carbendazim foi sintetizado pelo método de evaporação lenta em solução de dimetilformamida, e sua estrutura cristalina foi confirmada através de refinamento pelo método de Rietveld, exibindo simetria monoclínica com grupo espacial C2/c e Z = 8. Suas propriedades vibracionais e estruturais foram investigadas por meio de espectroscopia Raman e cálculos de primeiros princípios utilizando a teoria do funcional da densidade (DFT), com o funcional B3LYP, o conjunto de bases 6–311++ e o modelo de solvatação PCM. No cristal, o experimento de espectroscopia Raman dependente da pressão foi realizado entre 0,0 e 7,82 GPa, na região espectral de 50–3250 cm⁻¹. A análise dos espectros vibracionais em torno de 0,91 GPa revelou alterações tanto nos modos de rede quanto nos modos internos, indicando uma modificação estrutural causada pela reorganização das ligações de hidrogênio. Além disso, mudanças adicionais foram observadas, principalmente nos modos internos, sugerindo uma mudança conformacional em torno de 4,84 GPa. Após a descompressão, verificou-se que a transição de fase é reversível, com a recuperação completa do espectro original e sem evidências de fissuras na amostra durante o experimento. [R.O. Holanda, W.P. Gomes, J.A.S. Silva, D.L.M. Vasconcelos, P.T.C. Freire, J. Mol. Struct. 1349, 143673 (2026)].



quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

ACE₂PbBr₄

Os haletos de chumbo orgânico-inorgânicos híbridos são materiais funcionais com diversas aplicações, entre elas células solares, fotodetectores e dispositivos emissores de luz. Um grupo promissor é o dos haletos de chumbo, que cristalizam-se em uma estrutura perovskita tridimensional (3D) de fórmula geral APbX₃ (A = cátion orgânico; X = ânion haleto). Infelizmente, as perovskitas haleto de chumbo 3D são raras devido ao tamanho sub nanométrico das cavidades da perovskita disponíveis para os cátions orgânicos, e tais estruturas foram relatadas apenas para quatro pequenos cátions orgânicos. Para superar o problema da pequena diversidade estrutural das perovskitas 3D, podem ser projetados haletos de chumbo contendo cátions orgânicos maiores. Essa abordagem levou à descoberta de uma enorme quantidade de haletos de chumbo híbridos de dimensionalidade reduzida, mas o subgrupo mais importante e mais numeroso consiste nos análogos bidimensionais (2D) de fórmula geral A′₂PbX₄ (Ruddlesden – Popper, RP) e A′′PbX₄ (Dion – Jacobson, DJ), nos quais A′ e A′′ denotam cátions orgânicos monovalentes e divalentes, respectivamente. Essas perovskitas são derivadas da estrutura 3D pela substituição de camadas inorgânicas ao longo dos planos cristalográficos (001), (110) ou (111) por camadas compostas por cátions orgânicos. Por causa das camadas orgânicas isolantes, tais sistemas são estruturas naturais de poços quânticos, exibindo larguras de banda proibida maiores e energias de ligação de éxcitons mais elevadas em comparação com os análogos 3D, o que torna os análogos 2D muito promissores para aplicações em emissão de luz. Nesse contexto, a emissão das perovskitas orientadas ao longo de (001) está geralmente associada à recombinação radiativa de éxcitons livres (FEs), resultando em uma emissão estreita de alta pureza de cor, atraente para a fabricação de diodos emissores de luz (LEDs). Por outro lado, a presença de planos inorgânicos corrugados em zigue-zague nas perovskitas orientadas ao longo de (110) intensifica o acoplamento elétron–fônon entre o éxciton e a rede inorgânica, levando à formação de éxcitons auto aprisionados (STEs). Como resultado, a fotoluminescência (PL) desses sistemas é geralmente dominada por uma emissão de banda larga relacionada à recombinação de STEs. Esse tipo de emissão pode ser explorado no desenvolvimento de telas coloridas, sistemas de iluminação e LEDs de luz branca. As propriedades ópticas dos haletos de chumbo 2D podem ser ajustadas por meio da variação da composição química, pois a forma, o tamanho e a capacidade de formar ligações de hidrogênio (HBs) do cátion orgânico determinam qual tipo de estrutura em camadas — orientada segundo (001), (110) ou (111) — será estabilizada e quão grande será a distorção octaédrica. A pressão pode, igualmente, modificar bastante as propriedades óticas deste material. Neste trabalho, mostra-se a ocorrência de um estreitamento da banda proibida induzida por pressão e um aumento das emissões de STE e FE na topologia da perovskita RP orientada segundo (110), ACE₂PbBr₄ (ACE = acetamidínio), acompanhado pelo raro fenômeno do processo reversível de desarmadilhamento de STEs para FEs sob compressão. Especificamente, a emissão associada aos STEs apresenta um aumento de intensidade de 6,4 vezes até 2,56 GPa, enquanto a emissão de FEs passa a dominar sob pressões mais elevadas, até 11 GPa, provocando uma mudança pronunciada na cor da emissão, de amarelo-alaranjado para azul-esverdeado, ao longo do intervalo de compressão. A difração de raios X de monocristal in situ e a espectroscopia Raman revelam que essas mudanças de emissão decorrem da raramente observada redução, induzida por pressão, da distorção dos octaedros de brometo de chumbo e do confinamento na direção da estrutura corrugada, bem como de alterações nas interações entre aminas e a rede cristalina, além de transições de fase induzidas por pressão. Esses resultados elucidam a relação estrutura – propriedade em perovskitas RP orientadas em (110) e ressaltam a utilidade da engenharia de deformação (strain engineering) para a obtenção de materiais emissores de luz com funcionalidades ajustadas e aprimoradas. [M. Mączka, S. Sobczak, K. Roszak, D. L. M. Vasconcelos, F. Dybała, A. P. Herman, R. Kudrawiec, A. Katrusiak, P. T. C. Freire, ACS Appl. Mater. Interfaces 17, 58452−58466 (2025)].


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

β-Bi₂Mo₂O₉

Os molibdatos de bismuto constituem uma classe de compostos da fase Aurivillius homóloga ao Mo, com a fórmula química geral Bi₂O₃·nMoO₃, em que n = 3, 2 ou 1. Esses materiais são polimórficos e podem cristalizar em diferentes fases estruturais α, β, γ e γ′, dependendo das condições de síntese. Essa família de compostos tem recebido considerável atenção em razão de seu potencial em diversas aplicações em dispositivos avançados. Eles são considerados candidatos promissores para o desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia, supercapacitores, termometria óptica, sensores de gases, e baterias de íons de lítio. Além disso, compostos como Bi₂Mo₂O₉ e Bi₂MoO₆ têm apresentado atividade fotocatalítica notável, incluindo a fotodegradação de poluentes orgânicos. Esses compostos de molibdato de bismuto têm sido investigados por meio de diversas técnicas de caracterização, em particular envolvendo estudos de espectroscopia Raman sob pressão e condições extremas de temperatura. Recentemente, investigações em alta pressão têm se concentrado principalmente nos compostos Bi₂MoO₆ e Bi₂(MoO₄)₃. As mudanças estruturais induzidas pela pressão nesses compostos são atribuídas principalmente a rotações rígidas dos octaedros MoO₆, refletindo a flexibilidade estrutural intrínseca dos molibdatos de bismuto. O Bi₂Mo₂O₉, por seu turno, emerge como um exemplar notável da família dos molibdatos de bismuto, classificado como o membro n = 2 das fases Aurivillius. Neste artigo apresenta-se uma investigação sobre as propriedades estruturais, vibracionais e eletrônicas do composto monoclínico β-Bi₂Mo₂O₉, empregando abordagens experimentais e de primeiros princípios. A difração de raios X combinada com o refinamento de Rietveld confirma a cristalização do Bi₂Mo₂O₉ no grupo espacial P2₁/n. Cálculos de teoria do funcional da densidade no esquema LDA-D revelam uma leve subestimação dos parâmetros de rede e do volume da célula unitária, preservando, contudo, as geometrias locais. As propriedades vibracionais foram examinadas por espectroscopias Raman e no infravermelho, apoiadas por análise de teoria de grupos, indicando uma rica atividade de fônons consistente com a simetria complexa e a base multiatômica da rede monoclínica. Cálculos da estrutura eletrônica identificam o BMO como um semicondutor de gap indireto, com gap de banda calculado de 2,23 eV, em estreita concordância com dados ópticos experimentais. As análises de cargas de Bader e da função de localização eletrônica (ELF) evidenciam um caráter de ligação iônico-covalente misto, particularmente pronunciado na sub-rede Mo–O. Espectros Raman a baixas temperaturas (12–300 K) revelaram deslocamentos sistemáticos para números de onda menores, alargamento de picos e redução de intensidade nos modos de fônons de baixa e alta frequência, indicativos de efeitos anarmônicos pronunciados e da expansão térmica da rede. Em contraste, espectros Raman sob alta pressão, coletados até 9,08 GPa, mostraram uma tendência geral de endurecimento dos fônons com o aumento da pressão, atribuída à compressão da rede. Vários modos Raman exibiram comportamentos anômalos, como aparecimento e desaparecimento de modos e mudanças de inclinação, apontando para transições de fase induzidas por pressão e possíveis alterações de simetria. [Raí F. Jucá, José Gadelha da Silva Filho, Lindemberg S. Oliveira, Antônio Joel Ramiro de Castro, Marcelo A. S. Silva, Antonio Sérgio B. Sombra, Pierre Basílio Almeida Fechine, João Maria Soares, Antônio César Honorato Barreto, Paulo T. C. Freire, and Gilberto Dantas Saraiva,  Journal of Physical Chemistry C 129, 19560-19572 (2025)].


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Mistura anatase-rutilo

O presente trabalho não diz respeito a um resultado de altas pressões estáticas, mas à consequência do superaquecimento em experimentos de pressão dinâmica (ondas de choque acústica, mais especificamente) na interpretação de resultados de difração de raios-X no dióxido de titânioLembramos que tal óxido possui quatro polimorfos que, na ordem decrescente de abundância, são o rutilo [estrutura tetragonal P42/mnm], a anatase [estrutura tetragonal I41], a brookite [estrutura tetragonal Pbca] e a akaogiite [estrutura monoclínica P21/c]. Publicações recentes revelam que nanopartículas (NPs) de TiO₂ com fases mistas anatase–rutilo (AR) apresentam maior eficiência em comparação com as fases puras de anatase e rutilo, devido à melhor separação dos portadores de carga e à consequente redução da recombinação elétron–lacuna. Mas é essencial uma compreensão aprofundada da transformação de fase de anatase para rutilo. Além disso, os resultados das propriedades físicas dependem fortemente da razão entre as fases para aplicações específicas. Normalmente, dados de difração de raios X (DRX) e de espectroscopia Raman são utilizados para calcular a razão relativa das fases anatase e rutilo em NPs de TiO₂. Em 1957, Spurr e Mayers propuseram uma fórmula matemática para calcular a razão em massa das fases anatase e rutilo com base nas razões de intensidade de picos de DRX. Muitos pesquisadores têm utilizado essa fórmula padrão para calcular a razão entre as fases anatase e rutilo a partir de dados de DRX em detrimento da espectroscopia Raman. Essas técnicas derivam seus resultados a partir da razão de intensidade de picos de difração característicos, como (101)ₐ e (110)ᵣ para anatase e rutilo, respectivamente, e de bandas vibracionais internas Raman, como (B₁g 399 cm⁻¹)ₐ e (E_g 447 cm⁻¹)ᵣ para anatase e rutilo, respectivamente. Em condições de síntese assistida por aquecimento isotérmico de NPs de AR-TiO₂, os resultados obtidos tanto pela equação de Spurr–Mayers quanto pela análise espectral Raman no visível são praticamente idênticos. Em contraste, sob condições de superaquecimento (por exemplo, ondas de choque acústicas) ou em sínteses de NPs de AR assistidas por implantação iônica, os resultados obtidos pela equação de Spurr–Mayers e pela análise espectral Raman no visível fornecem implicações distintas, o que levanta questionamentos sobre a confiabilidade desses resultados, como, por exemplo, de que forma essa técnica poderia calcular com precisão as razões entre as fases anatase e rutilo sob condições de superaquecimento. Nesse contexto, é altamente necessária uma compreensão adequada para interpretar corretamente tanto a transição de fase de anatase para rutilo quanto a de rutilo para anatase, bem como para aprimorar o papel das razões de fases mistas nas propriedades físicas e químicas das NPs de TiO₂, o que pode melhorar a integridade científica do TiO₂ nos âmbitos da ciência fundamental e da ciência avançada. O interessante é que a razão de intensidade de raios X (101)ₐ/(110)ᵣ permanece constante nas amostras submetidas ao superaquecimento; entretanto, os resultados espectrais Raman demonstram mudanças significativas ocorrendo na razão de intensidade das NPs de TiO₂ nas bandas da anatase (B₁g – 399 cm⁻¹) e do rutilo (A_g – 447 cm⁻¹), o que comprova alterações na proporção das fases anatase e rutilo do AR-TiO₂. Com base nesses achados, comprova-se que a equação de Spurr–Mayers apresenta limitações significativas em sua capacidade de fornecer a razão precisa entre as proporções de anatase e rutilo em sínteses de NPs de AR-TiO₂ baseadas em superaquecimento. Sua imprecisão é atribuída ao predomínio de processos dinâmicos de recristalização microestrutural e a mudanças cristalográficas superficiais, que não foram consideradas na formulação original. [S. Aswathappa, L. Dai, S.J.D. Sathiayadhas, R.S. Kumar, A.I. Almansour, P.T.C. Freire, S. Athiruban, G. Kang, Ceramics International 51, 61025-61034 (2025)].


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Calibração de Pressão

 A calibração da pressão no interior de uma célula a extremos de diamantes é uma importante etapa num experimento de altas pressões, seja ele relativo a medidas de difração de raios-X, espectroscopias vibracionais ou outras. Para pressões tipicamente inferiores a 60 - 70 GPa, a calibração pode ser realizada por meio da luminescência do Cr3+ na matriz Al2O3, ou seja, no rubi. Este método é preciso, rápido e bastante confiável. 

No Laboratório de Altas Pressões do Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará foi desenvolvido um aplicativo para se realizar este cálculo ainda mais rapidamente. O aplicativo é de autoria do técnico do LAP-UFC, Dr. Cesar Rodrigues Fernandes, e a descrição do mesmo é fornecida a seguir.

Links para instalação e informações sobre o aplicativo.

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sábado, 9 de agosto de 2025

ENAP-2025

 Aconteceu nos dias 07 e 08 de agosto de 2025, em Porto Alegre – RS, o Encontro Nacional de Altas Pressões – 2025 (ENAP-2025) onde foram discutidos diversos assuntos sobre as pesquisas e melhorias de infra-estrutura de altas pressões no Brasil. Inicialmente, o Prof. Altair Soria, coordenador do evento, e o Prof. Sérgio Magalhães, diretor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, deram as boas vindas a todos os participantes. Em seguida, ocorreu uma pequena palestra virtual proferida pelo Prof. Alziro Jornada, quando ele fez um belo resumo sobre a sua experiência de pesquisas com altas pressões e luz síncrotron, bem como relembrou a sua contribuição na formação de pessoas para trabalharem com o tema, desde o final da década de 1970. O Prof. Paulo Freire, da Universidade Federal do Ceará, se manifestou falando rapidamente sobre a continuidade das pesquisas na área após o ano de 1995, com a criação do Laboratório de Altas Pressões da UFC, mas destacando que o ponto de inflexão para o aumento das pesquisas relacionadas à altas pressões foi o uso das bigornas de diamantes no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron a partir da metade da década de 2000.

Das palestras programadas, a inicial foi proferida pelo Dr. Narcizo Marques, chefe do setor de Matéria Condensada do Sirius, que falou da construção do referido laboratório a partir do ano de 2015, que é um acelerador de partículas de quarta geração. Em particular, discorreu sobre as novas linhas, Sussuarana, Ariranha, Quiri-Quiri, que se encontram em fase de compra de equipamentos. Outras duas linhas, que no momento encontram-se apenas no papel são a INGA e a SERIEMA. Esta última, em particular, será de muita importância para a área de altas pressões do país, uma vez que poderá fazer medidas tanto de XRD e XAS para uma quantidade muito grande de amostras. Já a Dra. Danusa do Carmo, também do Sirius, relatou que a linha Sussuarana será de altas energias e alto fluxo, ideal para grandes amostras, investigando características microestruturais em altas pressões e altas temperaturas, análise in-situ de síntese e processamento, entre outros. A seguir, Rodolfo Tartaglia, também do laboratório Sirius, discorreu sobre a linha EMA, que é a mais utilizada pela comunidade de altas pressões, contendo equipamentos de altas pressões, altas temperaturas e um supercondutor magnético, que permitirá medidas com campos de até 11 T. Em seguida, o Prof. Paulo Freire, da Universidade Federal do Ceará ministrou uma palestra sobre MOFs submetido a altas pressões, concentrando-se num exemplo onde foram realizadas medidas de difração de raios-X, espectroscopia Raman, luminescência (permitindo-se observar free excitons e self-trapped excitons) e transmitância. O Prof. João Victor Moura, da Universidade Federal do Maranhão, discorreu sobre materiais funcionais, como alguns tungstatos e molibdatos, olhando detalhes obtidos por difração de raios-X e espectroscopia Raman. Encerrando a manhã deste primeiro dia, Andres Cardena, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentou sua pesquisa relacionada à cristalização de vitrocerâmicas LAS (LI2O.Al2O3.SiO2), observando-se o efeito do crescimento dos cristais, bem como os de temperatura e pressão. A tarde começou com uma palestra do Prof. Claudio Perottoni, da Universidade de Caxias do Sul, que discorreu sobre as dificuldades de estudo no diagrama de fase do flúor, que via de regra, apresenta um grande desafio teórico pelo fato deste elemento químico corroer as bigornas de diamantes quando em altas pressões. Com uma analogia com a luta de Jacó e o anjo, o Prof. Claudio tentou mostrar às dificuldades técnicas que os teóricos encontram nas suas buscas para entenderem determinados aspectos da realidade através da simulação computacional. Continuando nesta linha de simulação computacional, a seguir falou o Prof. Mateus Ferrer, da Universidade Federal de Pelotas, que mostrou estudos de DFT em alguns óxidos como o BiOBr e o CdTiO3, além do CsPb2Br5 e o CsPb2Br4I sob altas pressões. Rômulo Sampaio, estudante de doutorado da Universidade Federal do Ceará, discorreu sobre o ácido adípico, um ácido carboxílico, no qual ele realizou estudos de dos modos vibracionais em função da pressão, além de cálculos de primeiros princípios utilizando o CASTEP.  O Prof. Fábio Furtado, da Universidade Federal do Amapá, a seguir discorreu sobre um estudo em porifirnas de base livre, em particular, mostrando o comportamento de modos vibracionais induzidos por altas pressões. Em seguida, o estudante de doutorado da UFC, Rômulo Sampaio da Silva, discorreu sobre as propriedades vibracionais e estruturais do ácido adípico sob altas pressões, assunto que faz parte do seu trabalho de pesquisa. De uma maneira virtual, em continuidade, falou o Prof. Daniel Errandonea, da Universidad de Valencia, que apresentou um belo estudo sobre transportes elétricos. Neste estudos ele mostrou as dificuldades associadas às medidas de resistividade e de efeito Hall, além de resultados em filmes finos de InSb:TE, PrVO4, InSe, CdTe, HfS2 e as transições de fase induzidas por pressão, além de interessantes aspectos de medidas de capacitância sob altas pressões. O Prof. Julio Jimenez, da Universidade de São Paulo, relatou a viabilidade de se produzir materiais quânticos e o papel desempenhado pelos defeitos nestes sistemas. Como exemplo ele falou sobre a FeGa3 e o aparecimento de intrabandas – entre as banda de valência e de condução – que farão com que a resistividade do material aumente a baixas temperaturas. Continuando, a Profa. Luana Caron, da Bielefeld University, Germany, apresentou um trabalho sobre o acoplamento magneto-elástico em materiais magneto-calóricos, no qual a temperatura de um sistema pode ser aumentada com a aplicação de um campo magnético. Em particular, a Profa. Luana apresentou um estudo sobre o efeito da refrigeração magnética num sistema NiMn. Como última apresentação do dia, o estudante de doutorado da UNICAMP, Leonardo Kutelak apresentou um estudo de materiais com topologia não trivial, como o EuB6, o MnG3 e o efeito Hall anômalo, além de uma discussão sobre a possibilidade de uma supercondutividade topológica no MoTe2. Como atividade de confraternização entre os participantes, todos foram a uma churrascaria assistir a uma bela apresentação de dança folclórica gaúcha, encerrando assim, o primeiro dia do encontro.


O segundo dia do encontro iniciou-se com uma palestra virtual do Prof. Achraf Atila, do Federal Institure for Materials research and Testing (BAM), Germany, que concentrou-se no uso da dinâmica molecular em vidros. Através da técnica da persistent homology, ele analisou as dimensões dos anéis e dos vazios formados nos vidros e o efeito das altas pressões nestas particularidades do material. O Prof. Silvio Buchner, da UFRGS, falou sobre diversas propriedades óticas e mecânicas de vidro, quando se aplica a pressão, com destaque para estudos com luz síncrotron. Para ilustrar ele discorreu sobre o total pair distribution function em função da pressão. A seguir, Leonardo Evaristo discorreu sobre a calibração de altas pressões e altas temperaturas em câmaras de grandes volumes sem a utilização de termopares. Dando continuidade, o engenheiro Dagoberto Severo, da Caeté Engenharia Ltda. apresentou as dificuldades oriundas das tensões compressivas em materiais para a construção de câmeras toroidais e como as simulações numéricas auxiliam na resolução deste grande problema. Na sequência, ocorreu a apresentação de seis painéis por parte de seis estudantes de pós-graduação de diversos programas. À tarde, o Prof. Waldeci Paraguassu, da Universidade Federal do Pará, discorreu também sobre o tema MOF, com destaque para o acetamidinium Mn e discussão sobre propriedades dielétricas e óticas do material sob condições extremas de pressão. O próximo palestrante foi o Prof. Rafael Alencar, da Universidade Federal do Ceará, que mostrou ao público presente os seus estudos em sistemas bidimensionais, em particular o WSe2 e o MoSe4. O Prof. Rafael deu destaque à questão relacionada ao strain que os substratos exercem nestes tipos de amostras. Seguindo a ordem da apresentação, falou então o estudante de doutorado da Universidade Federal do Ceará, Wagner Pereira, que mostrou os seus resultados relativos ao Zn glicil-L-fenilalanina que muda bastante com a aplicação de pressão em relação à glicil-L-fenilalanina, diferentemente do Cd glicil-L-fenilalanina. Fechando as palestras do dia, expôs o técnico do Sirius, Jairo Fonseca, que apresentou os últimos desenvolvimentos do laboratório de auxílio às pesquisas do Sirius, o LCTE, com destaque especial para os novos modelos de células de pressão a extremos de diamantes desenhadas e produzidas pelo laboratório, como aquelas feitas de aço inoxidável, inconel 178 (para altas temperaturas) e as de cobre-berílio. Como atividade final do encontro, como é tradição, ocorreu uma mesa redonda, comandada pelo coordenador do evento, Prof. Altair Soria, que passou a palavra para o Dr. Ricardo Reis, do Sirius, que discorreu sobre alguns pontos que ficaram como sugestão no encontro ENAP-2023 de Fortaleza, como a criação de um whatsapp do grupo, que foi implementado; também lembrou do insucesso de se formatar um curso financiado pela FAPESP em 2025 para 50 jovens do Brasil e 50 jovens de outros países da América Latina. Para conseguir realizar, então, a referida escola em 2027, o Dr. Ricardo e alguns outros sugeriram dividir os assuntos em 9 temas diferentes, com duas pessoas da comunidade para gerir cada tema, além de convidar professores para aulas e palestras de cada assunto. O Prof. Altair fez um agradecimento aos membros do comitê que o auxiliaram na organização do evento, enquanto o Prof. Waldeci Paraguassu se comprometeu a realizar o ENAP-2027 em Belém.


segunda-feira, 16 de junho de 2025

Professor Emérito para o Prof. Erivan Melo

Na noite do dia 13/06/2025, o magnífico Reitor da Universidade Federal do Ceará, Prof. Custódio Almeida, entregou o título de Professor Emértito ao Prof. Francisco Erivan de Abreu Melo, que foi um dos fundadores do Laboratório de Espalhamento de Luz da UFC e que também deu auxílio para a montagem inicial do Laboratório de Altas Pressões da Universidade Federal do Ceará. A cerimônia contou com a participação de diversos professores, amigos e familiares do Prof. Erivan. 


Figura: O Prof. Erivan Melo agradece o recebimento do título de Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará.

A apresentação do homenageado esteve a cargo do Prof. Paulo Freire, do LAP-UFC, cuja fala encontra-se reproduzida abaixo, principalmente para que os novos estudantes e usuários do laboratório tenham uma leve ideia a respeito do trabalho que era desenvolvido no  Departamento de Física há algumas décadas.

"Senhoras e senhores, muito boa noite.

Gostaria de começar essas rápidas palavras em homenagem ao nosso caro Prof. Francisco Erivan de Abreu Melo, citando Marcel Proust na sua busca pelo tempo perdido: "É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência permanecem inúteis." Assim, muitas vezes, as recordações podem se misturar com algumas lembranças imprecisas e pintar um quadro ligeiramente borrado, ou desfocalizado, de fatos memoráveis do passado. 

Então, mesmo com este perigo de cruzar a tênue linha entre os fatos reais e alguma pincelada mais forte da imaginação, vou tentar resumir a belíssima história do Prof. Francisco Erivan, utilizando um pouco das recordações da convivência e conversas que tive com o homenageado ao longo de quatro décadas. 

O Prof. Erivan entrou na Universidade Federal do Ceará como estudante do curso de Física no ano de 1970. Concluiu essa etapa da formação quatro anos depois, em 1973, obtendo o título de Bacharel em Física. Entre 1975, quando o Mestrado em Física da UFC foi iniciado, e janeiro de 1978, o Prof. Erivan desenvolveu o seu trabalho de pesquisa, defendendo uma dissertação (naquela época chamavam de 'tese'), que foi orientada pelo Prof. José Evangelista de Carvalho Moreira. Antes da defesa, por falta de um projetor de transparências - num contraste brutal entre a sofisticação do fenômeno observado e a forma de apresentação que se dispunha à época - os espectros Raman do material foram desenhados pelo Prof. Erivan com giz sobre um quadro negro, para o olhar um tanto atônito do membro externo da banca. De qualquer forma, tal dissertação foi a primeira defendida no Programa de Mestrado em Física da UFC, iniciando assim o pioneirismo do nosso homenageado em diversas atividades.

Aí estava plantada a semente para a criação do Laboratório de Espalhamento Raman da nossa universidade, que foi implementado pelo Prof. Erivan e pelo saudoso Prof. Josué Mendes Filho, parceiros de muitas aventuras. Hoje em dia, este é um dos mais importantes laboratórios de espectroscopia do país, contando com a dedicação de oito diferentes pesquisadores que já orientaram mais de 60 dissertações de mestrado e mais de 60 teses de doutorado. Entre estas teses destaco a defendida pelo Prof. Sanclayton Moreira, a primeira da UFC e do estado do Ceará e a do Prof. Antonio Gomes, que conseguiu o prêmio de melhor tese da Sociedade Brasileira de Física.

O jovem Erivan Melo, tendo como um dos avaliadores da sua dissertação o Prof. Sérgio Porto, da UNICAMP, o cientista que utilizou pela primeira vez o laser para estudar a espectroscopia Raman ainda no início da década de sessenta na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), foi por ele convidado a fazer o doutorado em Campinas sob a sua orientação. Partiu para realizar o seu estudo com o grande Prof. Porto, mas uma fatalidade - a morte prematura do mestre, em Novosibirsk - o impediu de concluir o doutorado no tema originalmente traçado por ele. De qualquer forma, com o novo orientador, o Prof. Fernando Cerdeira, desenvolveu uma complexa pesquisa, defendendo a tese no começo de 1983.

Foi nesse período de final de tese que conheci o Prof. Erivan, mais exatamente no segundo semestre do ano de 1982, quando ele ministrou para a turma de Bacharelado em Física que entrava na universidade, a disciplina de Física I. Não é porque ele está sendo homenageado que afirmo sem o menor temor de estar sendo impreciso que ele foi um excelente professor. Ainda tive a oportunidade de fazer com ele mais quatro disciplinas na graduação e no Mestrado. E aqui me permito contar uma história deste primeiro semestre. O Prof. Erivan, na primeira aula, disse que fora escalado pelo departamento para tentar fazer com que o maior número possível de estudantes continuasse e concluísse o curso porque havia uma grande evasão. Para isso, ele estava dando nota dez para todo mundo, e a única coisa que precisaríamos fazer era estudar e manter o dez nas avaliações, os famosos NPCs. Depois da aula, juntei-me com alguns colegas e falei: "Mas esse cara é engraçado, mesmo. Claro, se o estudante tirar dez, ele ficará com dez!" Não sei se o Prof. Erivan ainda lembra desta história, mas foi uma forma divertida dele dizer que deveríamos estudar bastante. E foi realmente uma turma muito participativa e aplicada, sem concessão, foi uma extraordinária disciplina!  

Muitos outros ex-estudantes também lembram com simpatia e alegre saudosismo as aulas do Prof. Erivan. Certa vez revi um colega daquele primeiro semestre, ele acabou se tornando policial rodoviário federal, saindo do curso antes de finalizá-lo, mas mesmo após umas três décadas a primeira pergunta que me fez foi: "o Prof. Erivan ainda está pelo Departamento?" Ou o caso de um médico que concluiu o seu curso no começo da década de oitenta e falou a um colega há poucas semanas, o Prof. Raimundo Costa, quando descobriu que ele era professor do Departamento de Física: "fui aluno do Prof. Erivan no início do meu curso de Medicina, e a disciplina de Física ministrada por ele foi marcante!"

Retornando do doutorado, o Prof. Erivan conduziu com o colega Josué uma série de orientações de estudantes de Mestrado no Laboratório de Espectroscopia Raman. Eram tempos de trabalho duro, quase quixotescos. Para se ter uma ideia, o laser de argônio usado nos experimentos, trabalha com alta corrente elétrica e produz bastante calor. É necessário um eficiente sistema de refrigeração de água circulando em torno do tubo. Hoje em dia o laboratório dispõe de um mecanismo que injeta água gelada produzida por aparelhos específicos. Na década de 80, nos anos de ouro do laboratório, era necessário um Sancho Pança subir com uma barra de gelo no ombro e depositá-la na caixa d'água, de onde era retirada a água para fazer a refrigeração do laser. Quando o laser estava pronto para ser usado, corria-se para fazer uma medida que, tipicamente, em virtude do registro ser feito numa cartolina com registrador a bico de pena, levava cerca de 50 minutos. Era um trabalho hercúleo, uma batalha diária contra os moinhos de vento das dificuldades. Mas, diferentemente do herói de Cervantes, os Quixotes dessas paragens venceram inúmeras batalhas, conseguindo recursos para modernizar o laboratório e facilitar a vida dos futuros pesquisadores e estudantes. Por exemplo, hoje, com os modernos sistemas de aquisição e registro, as medidas levam entre 5 e 10 minutos.

Nesta ideia de modernização, ainda na década de oitenta, lembro-me - como bolsista de IC do Prof. Erivan - da chegada do CP500 ao laboratório, transformando-se com a ajuda do agora Prof. José Ramos Gonçalves e do Dr. Anthony Donegan, no primeiro laboratório de espectroscopia Raman automatizado do país. Aqui não podemos esquecer os amigos da oficina mecânica que deram um apoio inestimável ao laboratório como os Srs. Antonio Barros, o mestre Sales, o amigo Piau, o Julio Bagre, entre outros. A amizade que o professor Erivan tinha com os referidos técnicos perdura até os dias de hoje.

Também naquela década distante, o Prof. Erivan teve a ideia de criar o Laboratório de Crescimento de Cristais do Departamento de Física, pioneirismo que permitiu uma fabulosa independência dos estudantes e pesquisadores, de tal modo que não se precisava esperar amostras para estudos de laboratórios do sul do país ou mesmo do exterior. Entre as diversas amostras sugeridas para fabricação neste laboratório pelo mestre Erivan, destaco a dos cristais de aminoácidos, lá pelo ano de 1989. Desta maneira, o laboratório se tornou, quase com certeza, no primeiro do país a estudar as propriedades físicas de cristais orgânicos. Hoje este é um tema vibrante de pesquisa, não apenas no Departamento de Física da UFC, mas também em diversas outras universidades. 

Com a implementação do doutorado no Programa de Pós-Graduação da Física, também no ano de 1989, o professor Erivan teve a oportunidade de orientar a primeira tese da nossa universidade, a do Prof. Sanclayton Geraldo Moreira, da UFPA, que investigou um antigo cristal ferroelétrico, o famoso KDP, que diziam ser um material sem atrativo, que já se conhecia tudo sobre ele. Entretanto, a dupla de pesquisadores, numa série de inventivos experimentos, conseguiu enxergar novas e interessantes características do material, publicando importantes artigos sobre o tema. A defesa, ocorrida em 1993, contou com a presença do reitor, pró-reitores, representantes da FIEC e autoridades do governo do estado do Ceará, foi uma festa da nossa academia. Ela abriu o caminho para muitas e muitas outras comemorações das dezenas de Programas de Pós-Graduação da nossa universidade, de tal modo que hoje - apenas pontuando - a Universidade Federal do Ceará é a instituição com mais cursos com notas 6 e 7 da CAPES em todo Norte e Nordeste do país. 

Com um outro aluno de doutorado, Antonio Themóteo Varela, além de trabalhos publicados na literatura científica especializada, realizou o depósito de quatro patentes. Neste período ele encubou uma empresa no PADETEC, a EMETECH. Entre as invenções daí surgidas destaca-se o sistema de irrigação automatizado, que ganhou o primeiro Prêmio FINEP de Inovação Tecnológica do Nordeste, ano 2000. E como acontece com muitas pessoas, a roda da fortuna pode ser ingrata e o pioneirismo nem sempre é vantajoso. Nesta primeira edição, o Prof. Erivan trouxe para casa um belíssimo caleidoscópio. A partir do segundo ano de instituição do prêmio, em vez do caleidoscópio, a premiação da FINEP passou a ser um depósito de quinhentos mil reais para a empresa!

O Prof. Erivan também teve a oportunidade de interagir com pesquisadores e estudantes de outros departamentos da UFC, co-orientando uma tese na Engenharia de Pesca e quatro dissertações na Medicina, além de ter também co-orientado trabalhos de Pós-Graduação na Química, no Labomar e na Biologia.

Na administração, igualmente, deu importantes contribuições. Como diretor temporário do Centro de Ciências durante o ano de 1995 realizou uma série de ações. Destaco a implementação da licenciatura noturna na nossa unidade acadêmica, com os cursos de Matemática, Química e Física. Como eram apenas 12 estudantes no primeiro semestre, conseguiu a liberação de carros da universidade e o apoio de dois motoristas do Centro de Ciências para esperar na entrada do campus os estudantes e trazê-los para o bloco de salas de aula e depois, ao término, conduzí-los de volta.

Na FUNCAP, como diretor científico entre 2005 e 2007, iniciou uma série de programas, como o Recém-Mestre e o Recém-Doutor, que consistiam em fornecer uma bolsa de doutorado para o estudante que defendesse a dissertação com antecedência até completar os 24 meses ou se o doutorado fosse defendido antes dos 48 meses. Por questões técnicas, o programa não durou muito, mas o esforço de melhorar os programas de pós-graduação, vale o registro. 

Permeando toda a sua vida acadêmica há algumas características marcantes do Prof. Erivan que gostaria ainda de destacar: a generosidade e o bom humor. Seja como diretor do Centro de Ciências, seja como diretor científico da Funcap, seja como mestre em sala de aula ou seja como orientador, tais características sempre o auxiliaram a manter o ambiente de trabalho pleno de leveza e confiança. Fica então o registro apenas para fechar a descrição de sua formidável atuação acadêmica.

Mas uma vida não se resume a um currículum Lattes ou a um memorial. Uma vida é muito mais do que aquilo que se descreve em um relato profissional. Uma boa gargalhada entre amigos e, principalmente, o convívio com os entes queridos da família valem ordens de grandezas mais do que uma linha no Lattes. Por isso que numa homenagem desse calibre precisamos lembrar e celebrar, conjuntamente, a família do homenageado. E aqui eu lembro e cumprimento a sua companheira de toda uma vida, a Profa. Vânia Maria Maciel Melo, nossa colega, seus filhos queridos, Jorge, Manoela, Marcela e Júnior, além das quatro netas, que aumentaram as alegrias cotidianas da família, como os amigos do Prof. Erivan podem apreender de suas falas sempre carinhosas e entusiasmadas quando se referem a elas.

E para encerrar, relembro Proust. "Na plena luz da memória habitual, as imagens do passado pouco a pouco empalidecem, apagam-se, nada mais resta delas, não mais a tornaremos a encontrar". E é por isso que a homenagem de Professor Emérito é tão importante. Ela impede o empalidecimento, o apagamento, a destruição da memória daqueles que contribuíram de forma excepcional para a nossa instituição, a nossa septuagenária Universidade Federal do Ceará. Um viva gigantesco ao Prof. Erivan. 

Obrigado pela atenção.
Prof. Paulo T. C. Freire"

Carbendazim

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