segunda-feira, 16 de junho de 2025

Professor Emérito para o Prof. Erivan Melo

Na noite do dia 13/06/2025, o magnífico Reitor da Universidade Federal do Ceará, Prof. Custódio Almeida, entregou o título de Professor Emértito ao Prof. Francisco Erivan de Abreu Melo, que foi um dos fundadores do Laboratório de Espalhamento de Luz da UFC e que também deu auxílio para a montagem inicial do Laboratório de Altas Pressões da Universidade Federal do Ceará. A cerimônia contou com a participação de diversos professores, amigos e familiares do Prof. Erivan. 


Figura: O Prof. Erivan Melo agradece o recebimento do título de Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará.

A apresentação do homenageado esteve a cargo do Prof. Paulo Freire, do LAP-UFC, cuja fala encontra-se reproduzida abaixo, principalmente para que os novos estudantes e usuários do laboratório tenham uma leve ideia a respeito do trabalho que era desenvolvido no  Departamento de Física há algumas décadas.

"Senhoras e senhores, muito boa noite.

Gostaria de começar essas rápidas palavras em homenagem ao nosso caro Prof. Francisco Erivan de Abreu Melo, citando Marcel Proust na sua busca pelo tempo perdido: "É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência permanecem inúteis." Assim, muitas vezes, as recordações podem se misturar com algumas lembranças imprecisas e pintar um quadro ligeiramente borrado, ou desfocalizado, de fatos memoráveis do passado. 

Então, mesmo com este perigo de cruzar a tênue linha entre os fatos reais e alguma pincelada mais forte da imaginação, vou tentar resumir a belíssima história do Prof. Francisco Erivan, utilizando um pouco das recordações da convivência e conversas que tive com o homenageado ao longo de quatro décadas. 

O Prof. Erivan entrou na Universidade Federal do Ceará como estudante do curso de Física no ano de 1970. Concluiu essa etapa da formação quatro anos depois, em 1973, obtendo o título de Bacharel em Física. Entre 1975, quando o Mestrado em Física da UFC foi iniciado, e janeiro de 1978, o Prof. Erivan desenvolveu o seu trabalho de pesquisa, defendendo uma dissertação (naquela época chamavam de 'tese'), que foi orientada pelo Prof. José Evangelista de Carvalho Moreira. Antes da defesa, por falta de um projetor de transparências - num contraste brutal entre a sofisticação do fenômeno observado e a forma de apresentação que se dispunha à época - os espectros Raman do material foram desenhados pelo Prof. Erivan com giz sobre um quadro negro, para o olhar um tanto atônito do membro externo da banca. De qualquer forma, tal dissertação foi a primeira defendida no Programa de Mestrado em Física da UFC, iniciando assim o pioneirismo do nosso homenageado em diversas atividades.

Aí estava plantada a semente para a criação do Laboratório de Espalhamento Raman da nossa universidade, que foi implementado pelo Prof. Erivan e pelo saudoso Prof. Josué Mendes Filho, parceiros de muitas aventuras. Hoje em dia, este é um dos mais importantes laboratórios de espectroscopia do país, contando com a dedicação de oito diferentes pesquisadores que já orientaram mais de 60 dissertações de mestrado e mais de 60 teses de doutorado. Entre estas teses destaco a defendida pelo Prof. Sanclayton Moreira, a primeira da UFC e do estado do Ceará e a do Prof. Antonio Gomes, que conseguiu o prêmio de melhor tese da Sociedade Brasileira de Física.

O jovem Erivan Melo, tendo como um dos avaliadores da sua dissertação o Prof. Sérgio Porto, da UNICAMP, o cientista que utilizou pela primeira vez o laser para estudar a espectroscopia Raman ainda no início da década de sessenta na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), foi por ele convidado a fazer o doutorado em Campinas sob a sua orientação. Partiu para realizar o seu estudo com o grande Prof. Porto, mas uma fatalidade - a morte prematura do mestre, em Novosibirsk - o impediu de concluir o doutorado no tema originalmente traçado por ele. De qualquer forma, com o novo orientador, o Prof. Fernando Cerdeira, desenvolveu uma complexa pesquisa, defendendo a tese no começo de 1983.

Foi nesse período de final de tese que conheci o Prof. Erivan, mais exatamente no segundo semestre do ano de 1982, quando ele ministrou para a turma de Bacharelado em Física que entrava na universidade, a disciplina de Física I. Não é porque ele está sendo homenageado que afirmo sem o menor temor de estar sendo impreciso que ele foi um excelente professor. Ainda tive a oportunidade de fazer com ele mais quatro disciplinas na graduação e no Mestrado. E aqui me permito contar uma história deste primeiro semestre. O Prof. Erivan, na primeira aula, disse que fora escalado pelo departamento para tentar fazer com que o maior número possível de estudantes continuasse e concluísse o curso porque havia uma grande evasão. Para isso, ele estava dando nota dez para todo mundo, e a única coisa que precisaríamos fazer era estudar e manter o dez nas avaliações, os famosos NPCs. Depois da aula, juntei-me com alguns colegas e falei: "Mas esse cara é engraçado, mesmo. Claro, se o estudante tirar dez, ele ficará com dez!" Não sei se o Prof. Erivan ainda lembra desta história, mas foi uma forma divertida dele dizer que deveríamos estudar bastante. E foi realmente uma turma muito participativa e aplicada, sem concessão, foi uma extraordinária disciplina!  

Muitos outros ex-estudantes também lembram com simpatia e alegre saudosismo as aulas do Prof. Erivan. Certa vez revi um colega daquele primeiro semestre, ele acabou se tornando policial rodoviário federal, saindo do curso antes de finalizá-lo, mas mesmo após umas três décadas a primeira pergunta que me fez foi: "o Prof. Erivan ainda está pelo Departamento?" Ou o caso de um médico que concluiu o seu curso no começo da década de oitenta e falou a um colega há poucas semanas, o Prof. Raimundo Costa, quando descobriu que ele era professor do Departamento de Física: "fui aluno do Prof. Erivan no início do meu curso de Medicina, e a disciplina de Física ministrada por ele foi marcante!"

Retornando do doutorado, o Prof. Erivan conduziu com o colega Josué uma série de orientações de estudantes de Mestrado no Laboratório de Espectroscopia Raman. Eram tempos de trabalho duro, quase quixotescos. Para se ter uma ideia, o laser de argônio usado nos experimentos, trabalha com alta corrente elétrica e produz bastante calor. É necessário um eficiente sistema de refrigeração de água circulando em torno do tubo. Hoje em dia o laboratório dispõe de um mecanismo que injeta água gelada produzida por aparelhos específicos. Na década de 80, nos anos de ouro do laboratório, era necessário um Sancho Pança subir com uma barra de gelo no ombro e depositá-la na caixa d'água, de onde era retirada a água para fazer a refrigeração do laser. Quando o laser estava pronto para ser usado, corria-se para fazer uma medida que, tipicamente, em virtude do registro ser feito numa cartolina com registrador a bico de pena, levava cerca de 50 minutos. Era um trabalho hercúleo, uma batalha diária contra os moinhos de vento das dificuldades. Mas, diferentemente do herói de Cervantes, os Quixotes dessas paragens venceram inúmeras batalhas, conseguindo recursos para modernizar o laboratório e facilitar a vida dos futuros pesquisadores e estudantes. Por exemplo, hoje, com os modernos sistemas de aquisição e registro, as medidas levam entre 5 e 10 minutos.

Nesta ideia de modernização, ainda na década de oitenta, lembro-me - como bolsista de IC do Prof. Erivan - da chegada do CP500 ao laboratório, transformando-se com a ajuda do agora Prof. José Ramos Gonçalves e do Dr. Anthony Donegan, no primeiro laboratório de espectroscopia Raman automatizado do país. Aqui não podemos esquecer os amigos da oficina mecânica que deram um apoio inestimável ao laboratório como os Srs. Antonio Barros, o mestre Sales, o amigo Piau, o Julio Bagre, entre outros. A amizade que o professor Erivan tinha com os referidos técnicos perdura até os dias de hoje.

Também naquela década distante, o Prof. Erivan teve a ideia de criar o Laboratório de Crescimento de Cristais do Departamento de Física, pioneirismo que permitiu uma fabulosa independência dos estudantes e pesquisadores, de tal modo que não se precisava esperar amostras para estudos de laboratórios do sul do país ou mesmo do exterior. Entre as diversas amostras sugeridas para fabricação neste laboratório pelo mestre Erivan, destaco a dos cristais de aminoácidos, lá pelo ano de 1989. Desta maneira, o laboratório se tornou, quase com certeza, no primeiro do país a estudar as propriedades físicas de cristais orgânicos. Hoje este é um tema vibrante de pesquisa, não apenas no Departamento de Física da UFC, mas também em diversas outras universidades. 

Com a implementação do doutorado no Programa de Pós-Graduação da Física, também no ano de 1989, o professor Erivan teve a oportunidade de orientar a primeira tese da nossa universidade, a do Prof. Sanclayton Geraldo Moreira, da UFPA, que investigou um antigo cristal ferroelétrico, o famoso KDP, que diziam ser um material sem atrativo, que já se conhecia tudo sobre ele. Entretanto, a dupla de pesquisadores, numa série de inventivos experimentos, conseguiu enxergar novas e interessantes características do material, publicando importantes artigos sobre o tema. A defesa, ocorrida em 1993, contou com a presença do reitor, pró-reitores, representantes da FIEC e autoridades do governo do estado do Ceará, foi uma festa da nossa academia. Ela abriu o caminho para muitas e muitas outras comemorações das dezenas de Programas de Pós-Graduação da nossa universidade, de tal modo que hoje - apenas pontuando - a Universidade Federal do Ceará é a instituição com mais cursos com notas 6 e 7 da CAPES em todo Norte e Nordeste do país. 

Com um outro aluno de doutorado, Antonio Themóteo Varela, além de trabalhos publicados na literatura científica especializada, realizou o depósito de quatro patentes. Neste período ele encubou uma empresa no PADETEC, a EMETECH. Entre as invenções daí surgidas destaca-se o sistema de irrigação automatizado, que ganhou o primeiro Prêmio FINEP de Inovação Tecnológica do Nordeste, ano 2000. E como acontece com muitas pessoas, a roda da fortuna pode ser ingrata e o pioneirismo nem sempre é vantajoso. Nesta primeira edição, o Prof. Erivan trouxe para casa um belíssimo caleidoscópio. A partir do segundo ano de instituição do prêmio, em vez do caleidoscópio, a premiação da FINEP passou a ser um depósito de quinhentos mil reais para a empresa!

O Prof. Erivan também teve a oportunidade de interagir com pesquisadores e estudantes de outros departamentos da UFC, co-orientando uma tese na Engenharia de Pesca e quatro dissertações na Medicina, além de ter também co-orientado trabalhos de Pós-Graduação na Química, no Labomar e na Biologia.

Na administração, igualmente, deu importantes contribuições. Como diretor temporário do Centro de Ciências durante o ano de 1995 realizou uma série de ações. Destaco a implementação da licenciatura noturna na nossa unidade acadêmica, com os cursos de Matemática, Química e Física. Como eram apenas 12 estudantes no primeiro semestre, conseguiu a liberação de carros da universidade e o apoio de dois motoristas do Centro de Ciências para esperar na entrada do campus os estudantes e trazê-los para o bloco de salas de aula e depois, ao término, conduzí-los de volta.

Na FUNCAP, como diretor científico entre 2005 e 2007, iniciou uma série de programas, como o Recém-Mestre e o Recém-Doutor, que consistiam em fornecer uma bolsa de doutorado para o estudante que defendesse a dissertação com antecedência até completar os 24 meses ou se o doutorado fosse defendido antes dos 48 meses. Por questões técnicas, o programa não durou muito, mas o esforço de melhorar os programas de pós-graduação, vale o registro. 

Permeando toda a sua vida acadêmica há algumas características marcantes do Prof. Erivan que gostaria ainda de destacar: a generosidade e o bom humor. Seja como diretor do Centro de Ciências, seja como diretor científico da Funcap, seja como mestre em sala de aula ou seja como orientador, tais características sempre o auxiliaram a manter o ambiente de trabalho pleno de leveza e confiança. Fica então o registro apenas para fechar a descrição de sua formidável atuação acadêmica.

Mas uma vida não se resume a um currículum Lattes ou a um memorial. Uma vida é muito mais do que aquilo que se descreve em um relato profissional. Uma boa gargalhada entre amigos e, principalmente, o convívio com os entes queridos da família valem ordens de grandezas mais do que uma linha no Lattes. Por isso que numa homenagem desse calibre precisamos lembrar e celebrar, conjuntamente, a família do homenageado. E aqui eu lembro e cumprimento a sua companheira de toda uma vida, a Profa. Vânia Maria Maciel Melo, nossa colega, seus filhos queridos, Jorge, Manoela, Marcela e Júnior, além das quatro netas, que aumentaram as alegrias cotidianas da família, como os amigos do Prof. Erivan podem apreender de suas falas sempre carinhosas e entusiasmadas quando se referem a elas.

E para encerrar, relembro Proust. "Na plena luz da memória habitual, as imagens do passado pouco a pouco empalidecem, apagam-se, nada mais resta delas, não mais a tornaremos a encontrar". E é por isso que a homenagem de Professor Emérito é tão importante. Ela impede o empalidecimento, o apagamento, a destruição da memória daqueles que contribuíram de forma excepcional para a nossa instituição, a nossa septuagenária Universidade Federal do Ceará. Um viva gigantesco ao Prof. Erivan. 

Obrigado pela atenção.
Prof. Paulo T. C. Freire"

sábado, 7 de junho de 2025

Sal de Tutton K₂Ni(H₂O)₆(SO₄)₂

Neste trabalho - que conta com a participação de pesquisadores dos estados de SE, MG, MA, PA, ES, CE, RJ e RN, combinando o uso de diversas técnicas experimentais e computacionais - estudou-se a estrutura cristalina do sal de Tutton K₂Ni(H₂O)₆(SO₄)₂ e diversas de suas propriedades físicas. O sal foi sintetizado por meio do método de evaporação lenta em solução aquosa e a estrutura refinada com simetria monoclínica, pertencente ao grupo espacial P2₁/a, com duas fórmulas por célula unitária (Z = 2). As interações intermoleculares no cristal foram analisadas utilizando superfícies de Hirshfeld. Cálculos periódicos de DFT foram realizados para obter as propriedades eletrônicas, exploradas por meio da estrutura de bandas e da densidade de estados projetada (PDOS), bem como pelas atribuições dos modos Raman e infravermelho. A análise espectral, abrangendo a região entre 80 e 3600 cm⁻¹, indicou que não ocorreram transições de fase durante o resfriamento (de 300 K a 9 K), confirmando a estabilidade estrutural do cristal. No entanto, a dependência não linear da temperatura dos modos Raman sugeriu mudanças conformacionais que afetam comprimentos e ângulos de ligação. Uma diminuição na intensidade Raman a 60 K, particularmente em regiões espectrais associadas às vibrações da água e do sulfato, indicou modificações conformacionais significativas. Da mesma forma, os espectros Raman dependentes da pressão (variando de 0,0 GPa a 7,05 GPa) mostraram alterações no número de onda e na largura de banda, reforçando a hipótese de que as vibrações das ligações da água impulsionam mudanças conformacionais. Também realizou-se uma caracterização magnética, que revelou um comportamento paramagnético à temperatura ambiente e interações antiferromagnéticas em baixas temperaturas. [Raí F. Jucá, Tiago S. Pacheco, Joao G. de Oliveira Neto, Luiz F.L. da Silva, José A.S. da Silva, J. Alves de Lima Jr, Paulo de Tarso C. Freire, Santunu Ghosh, Edinei C. Paiva, Joao M. Soares, Gilberto D. Saraiva, Spectrochimica Acta A 343, 126486 (2025)]


Ácido L-ascórbico

Muitas das propriedades físico-químicas do ácido L-ascórbico e sua estrutura cristalina sob diferentes condições termodinâmicas permanecem c...